COVID-19, a segunda onda e os fornecedores de cana de açúcar

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A primeira onda causada pelo COVID-19 levou muitos a associarem a pandemia como uma resposta às previsões apocalípticas presentes no livro de João, devido ao alcance do vírus, velocidade de propagação e seu potencial de letalidade, nos levando a crer que podemos estar às portas do fim do mundo.

Vale lembrar que “apocalipse” é uma palavra derivada do grego e significa “revelação”. E, de fato, estamos no processo de compreender que a COVID-19 é a revelação da fragilidade do modo de vida e de civilização que está em vigor. Daí a necessidade urgente de começar a ser escrito um novo capítulo. Como ele será depende, em grande medida, de como enfrentaremos uma segunda onda que se aproxima: a recessão global.

A crise global que vem se aproximando das economias, os efeitos sobre a demanda serão muito maiores do que o choque inicial da oferta. É prevista uma forte queda na demanda motivada pela incerteza, pânico e políticas de bloqueio, o que poderá forçar o fechamento de pequenas e médias empresas. Isso leva a um aumento nas demissões e uma queda adicional no consumo.

A economia entrará em um ciclo cuja reversão não está em um sistema de competitividade e liberdade absoluta, nem tampouco na intervenção do Estado, como veremos a seguir, utilizando o produtor de cana de açúcar como exemplo.

No dia 25 de março, última quarta-feira, a Bloomberg publicou a seguinte matéria: “Oil’s 60% Crash Is the Tip of an Iceberg. The Reality Is Worse” – por Alex Longley e Javier Blas. Traduzindo, “A Queda de 60% do Petróleo é o Topo de um Iceberg. A realidade é ainda pior”.

O petróleo Brent, extraído principalmente no Mar do Norte e no Oriente Médio e comercializado na Bolsa Londres, caiu cerca de 60% neste ano e estabilizou por volta de US $ 25 o barril. Porém, a deterioração dos preços é muito mais profunda para cargas reais, que estão trocando de mãos com grandes descontos.

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Os descontos significam que, no mercado físico, em alguns pontos o petróleo bruto é negociado a US $ 15, US $ 10 e até US $ 8 por barril. Fato que deveria fazer os produtores de bens substitutos reverem o que é risco. Perdas adicionais poderão ser o fiel da balança em um cenário tão adverso.

Em economia, um bem substituto é um bem que pode ser consumido em substituição a outro. A repercussão econômica primordial é que a demanda pelos dois bens é afetada pela relação de troca. Como produtores de um bem substituto à gasolina, os produtores de etanol serão impactados e, conseqüentemente os fornecedores de cana de açúcar.

Muitas usinas estarão inviabilizadas caso os preços do petróleo se mantiverem baixos por um longo período de tempo, tal como ocorreu entre 1986 e a entrada da China na OMC, em 1999. Caso esse cenário perdure, a intervenção do Estado, mantendo uma competitividade artificial do etanol, não está nas opções viáveis a longo prazo.

A opção fundamentada na competitividade e liberdade absoluta pode consolidar o setor e parecer adequada. Entretanto, a absorção dos fornecedores de cana, das usinas que não resistirem a este cenário, não contemplará a todos. Aqueles que não forem competitivos em um cenário tão adverso, mesmo os fornecedores de cana de longa data, estarão em risco.

O setor está diante de uma oportunidade para escrever um novo capítulo, onde a cadeia de produção seja forte e integrada, capaz de ultrapassar os profundos impactos econômicos que se aproximam.

O cenário aponta para uma grande oportunidade de aprimorar a gestão dos riscos das agroindústrias e estender os resultados obtidos aos seus fornecedores de cana de açúcar. Um clichê, porém, verdadeiro: “uma corrente é tão forte quanto o seu elo mais fraco”.

É uma oportunidade para rever as relações e construir modelos mais integrados, em que se olhe o todo, alcançando tanto resultados individuais quanto coletivos.

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